quarta-feira, 11 de março de 2026

Illuminati: The Game of Conspiracy

Illuminati: The Game of Conspiracy


© Moderno Bestiário - Arte Conceitual

        Faaala! Ainda buscando coisas do passado distante para revisitar, encontrei algumas coisas sobre esse TCG que vai e vem nos tópicos de lendas urbanas desde a década de 90, eu mesmo já escrevi um pouco sobre ele aqui nesse blog e mesmo assim achei relevante falar mais um pouco sobre e aprofundar melhor nessa paranoia toda de uma maneira um pouco mais didática 😜.

           Como um fã de Steve Jackson, e da Steve Jackson Games, foi muito legal revisitar esse assunto, espero que gostem tanto quanto eu gostei. No final da postagem deixo o site oficial do card game para que você possa também visitar e curtir um pouco mais de toda essa coisa estranha, então vamos lá!


Direitos Reservados - Steve Jackson Games - Fone: Divulgação



     Lançado em 1982 enquanto a maioria dos jogos de tabuleiro do início da década de 80 focava em simulações militares rígidas ou temas de fantasia clássica, a Steve Jackson Games (SJG) lançou em julho daquele ano um título que desafiaria as convenções do mercado: Illuminati: The Game of Conspiracy.

    O jogo foi concebido por Steve Jackson (G.U.R.P.S) após a leitura da satírica "The Illuminatus! Trilogy", escrita por Robert Shea e Robert Anton Wilson em 1975. A obra literária era um mergulho lisérgico no pós-modernismo e nas teorias da conspiração. Steve Jackson, percebendo o potencial lúdico daquela "confusão organizada", decidiu adaptar não a história dos livros, mas a sua premissa fundamental: a ideia de que o mundo é controlado por forças invisíveis que lutam entre si.

    Diferente de jogos de conquista territorial como War, em Illuminati a conquista é estrutural. Cada jogador assume o papel de uma sociedade secreta (os Illuminati de Baviera, a Sociedade de Discordia, os Gnomos de Zurique, entre outros) e tenta construir uma "estrutura de poder". A mecânica central envolve capturar "Grupos". Estes grupos variam do mundano ao absurdo: a CIA, os Lobbistas de Armas, os Boy Scouts, as Lojas de Aluguel de Vídeo ou até os Dentistas. Cada grupo possui setas de entrada e saída, criando um organograma visual na mesa do jogador. Se você controla a CIA, e a CIA controla os "Yuppies", você detém o poder sobre ambos.

    O grande triunfo da edição de 1982 foi transformar o medo da Guerra Fria e a desconfiança nas instituições em comédia ácida. O jogo sugeria que por trás de cada evento cotidiano banal — como uma mudança na lei de impostos ou um novo sabor de refrigerante — havia um plano sinistro orquestrado por seres espaciais ou banqueiros suíços.

     Originalmente, o jogo não era vendido em grandes caixas de luxo. Ele fazia parte da linha Pocket Box da SJG — pequenas caixas plásticas pretas que cabiam no bolso e continham componentes minimalistas: pequenos cartões recortáveis, fichas de dinheiro e um manual de regras denso. Esse formato acessível ajudou o jogo a se espalhar rapidamente pelos campus universitários e grupos de RPG, nichos onde o humor subversivo do título encontrou solo fértil.

     O impacto no design de jogos foi imediato. Em 1982, o título venceu o prestigioso Origins Award de Melhor Jogo de Tabuleiro de Ficção Científica. A crítica da época elogiou a sua "rejogabilidade" e a forma como incentivava a diplomacia (e a traição) entre os jogadores.

Para o colecionador e historiador de card games, a versão de 1982 é essencial por estabelecer a fundação mecânica e estética de tudo o que viria a seguir. Sem o sucesso deste jogo de "caixinha de bolso", a febre dos card games colecionáveis dos anos 90 jamais teria existido.



© Moderno Bestiário - Arte Conceitual

Illuminati: New World Order – INWO (1994)

    Essa versão de 1994 (INWO) ficou famosa pelas "previsões", ganhando uma fama de “oráculo” até os dias atuais, com retorno forte recentemente e tendo tornando-se consequentemente mais popular que a versão de 1982, que é celebrada pela elegância do design acadêmico e pela sua coragem em rir de temas que, na época, eram tratados com extrema seriedade política. Foi exatamente essa transição do jogo de 1982 para 1994 o ponto de virada onde o jogo deixou de ser apenas um produto de entretenimento (embora reconhecido de premiado) para ser tornar uma espécie de artefato cultural impulsionado pela invasão do Serviço Secreto em 1990 que veremos logo em seguida.

    Tendo em 1982 estabelecido as bases intelectuais da conspiração, a nova do jogo em 1994, batizada de Illuminati: New World Order (INWO), foi a responsável por elevar o jogo ao status de lenda urbana global. Lançado no auge da "febre" dos Trading Card Games (TCGs) iniciada por Magic: The Gathering, o INWO não foi apenas uma atualização, mas uma reinvenção completa da estética e do alcance da franquia. Naquela época, meados dos anos 90, a indústria de jogos passava por uma revolução e Steve Jackson percebeu que o sistema de "grupos" e "conspirações" do jogo original se adaptava perfeitamente ao modelo de cartas colecionáveis, tendo o cenário certo na época certa e o mercado no ponto certo para os TCGs, a Steve Jackson Games deu a ‘cartada’ que criou uma das maiores lendas urbanas e artefatos culturais Pop das últimas décadas que está sempre indo e voltando do imaginário popular.

    A grande diferença entre a versão de 1982 e a de 1994 reside na arte. Enquanto o original tinha ilustrações cartunescas e bem-humoradas, o INWO adotou um estilo mais sombrio, detalhado e, por vezes, perturbador. Artistas como John Grigni e Dan Smith deram ao jogo uma identidade visual que misturava realismo político com simbolismo esotérico. Foi essa arte específica que, anos depois, alimentaria as teorias de que o jogo continha mensagens subliminares ou premonições de eventos reais.

 

O Serviço Secreto invade a Steve Jackson Games e a presença de Loyd "The Mentor" Blankenship na STG – 1990

 

    Um evento real ocorrido antes do lançamento do INWO é a pedra fundamental das lendas sobre o jogo. Em 1º de março de 1990, agentes do Serviço Secreto dos EUA invadiram os escritórios da Steve Jackson Games em Austin, Texas e confiscaram computadores e rascunhos de livros, incluindo o suplemento de RPG GURPS Cyberpunk.

    A justificativa oficial era uma investigação de pirataria de dados envolvendo um Loyd Blankenship. Loyd havia sido contratado por Steve Jackson no final dos anos 80 para trabalhar como editor de jogos de RPG, sua experiência com computadores e subcultura hacker era encarada como um valioso ativo para a criação de conteúdos mais realistas para o G.U.R.P.S da Steve Jackson Games).

    Loyd era conhecido no mundo (e, principalmente no submundo) digital como “The Mentor” sendo uma figura lendária na história da computação e membro proeminente de diversos grupos hackers famosos nos anos 80 como o lendário “Legion of Doom”. Dentre todas as suas contribuições para a cultura do mundo digital que estava se consolidando naquela época provavelmente tenha sido o ensaio “The Conscience of a Hacker” que também ficou conhecido como O Manifesto Hacker, escrito em 1986 após sua prisão e tornou-se uma ‘bíblia’ ética para gerações de entusiastas da tecnologia sendo citado até mesmo no filem “Hackers” de 1995.

    O Serviço Secreto estava investigando o vazamento de um arquivo confidencial da Bell South (empresa de telefonia), como Loyd era um hacker conhecido e estava publicamente contratado pela SJG escrevendo um livro chamado “Cyberpunk”, os agentes, que não entendiam nada de RPG, acreditaram que o livro não era um jogo de ficção, mas um grande manual para “se perpetrar crimes de computador”. Na invasão eles confiscaram os computadores da SJG, os rascunhos de Loyd e até mesmo a impressora da empresa.

    No entanto, como a empresa estava desenvolvendo o jogo Illuminati: New World Order na mesma época, teóricos da conspiração passaram a alegar que o governo estava tentando impedir o lançamento do jogo por ele conter "segredos reais". Enfim, somo resultado jurídico Steve Jackson processou o governo e venceu em 1993, um caso histórico que ajudou a fundar a Electronic Frontier Foundation (EFF) em defesa das liberdades civis digitais.

    Loyd “The Mentor” Blankenship não era apenas um editor na Steve Jackson Games; ele era um dos hackers mais influentes dos EUA. Sua contratação para escrever GURPS Cyberpunk atraiu os olhos do Serviço Secreto, gerando uma invasão federal que, ironicamente, serviu como o melhor marketing possível para os jogos de conspiração da empresa, alimentando por décadas o mito de que Steve Jackson possuía informações proibidas pelo sistema


As famosas cartas "Terrorsit Nuke" e "Pentagon" - Fonte: Divulgação


Cartas Proféticas


    Não se pode falar sobre INWO sem falar sobre o fenômeno das cartas proféticas, décadas atrás quando escrevi meu primeiro artigo sobre esse TCG foi por elas que iniciei e agora é exatamente por causa delas que volto a escrever um novo artigo sobre Illuminati TCG e Steve Jackson Games. Cartas como "Terrorist Nuke", "Pentagon" e "Epidemic" tornaram-se virais décadas após o lançamento. Para os historiadores de jogos, isso é um testemunho da pesquisa profunda de Steve Jackson sobre os medos da cultura pop: o jogo capturou tão bem as ansiedades da geopolítica e da ficção de espionagem que muitos de seus cenários hipotéticos acabaram ecoando em eventos trágicos da vida real.

    É muito importante notar que o jogo foi lançado em 1994, qualquer evento ocorrido após essa data e que se assemelhe às cartas é o que alimenta as teorias de que Steve Jackson “sabia de algo”.

    No fim, tudo pode ser apenas uma coincidência. FNORD!

 

Vamos ver uma descrição analítica de alguns dos cards mais famosos e controversos:


1. Terrorist Nuke (Explosão Nuclear Terrorista)

Terrorist Nuke


Ilustração: Mostra dois prédios idênticos, arranha-céus de metal e vidro. Uma explosão massiva ocorre exatamente no meio de um deles, com fumaça preta e chamas irrompendo para os lados.

Ficção: Uma carta de "Trama" (Plot) usada para destruir um grupo inimigo instantaneamente através de um ataque direto.

Real: É a carta mais famosa devido à semelhança visual com o ataque às Torres Gêmeas (WTC) em 11 de setembro de 2001.

Comentário Analítico: Embora a imagem seja impactante, historiadores lembram que o World Trade Center já havia sofrido um atentado a bomba em 1993 (um ano antes do jogo). Além disso, o WTC era o símbolo máximo do capitalismo americano, tornando-se um alvo óbvio em qualquer obra de ficção sobre terrorismo na década de 90.

 

2. Pentagon (Pentágono)

Pentagon

Ilustração: O edifício do Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA, com uma enorme coluna de fogo e fumaça saindo de seu pátio central.

Ficção: Representa o poder militar e como ele pode ser corrompido ou atacado por conspirações internas.

Real: Também associada ao 11 de setembro, quando o voo 77 da American Airlines atingiu o prédio.

Comentário Analítico: O Pentágono é um ícone militar global. Em jogos de estratégia sobre "dominação mundial", atacar o centro de comando do adversário é um clichê de design. A "profecia" aqui reside na coincidência de ambos os alvos (WTC e Pentágono) aparecerem no mesmo set de cartas.

 

3. Epidemic (Epidemia)

Epidemic

Ilustração: Máscaras cirúrgicas, luvas de borracha, frascos de remédios e a palavra "QUARANTINE" (Quarentena) em destaque. Em algumas versões, vê-se corpos ou pessoas doentes ao fundo.

Ficção: Uma carta para reduzir a resistência de grupos populacionais ou destruir cidades inteiras.

Real: Frequentemente citada durante a pandemia de COVID-19 (2020) e o surto de Ebola (2014).

Comentário Analítico: Pandemias globais são ameaças biológicas discutidas por cientistas e ficção científica há décadas. O jogo apenas incluiu um medo sistêmico real da humanidade.

 

4. Combined Disasters (Desastres Combinados)

Combined Disasters

Ilustração: Mostra uma torre de relógio desmoronando e pessoas correndo em pânico. As pessoas usam roupas com cores que lembram as cores dos anéis olímpicos (preto, amarelo, azul, verde e vermelho).

Ficção: Permite que o jogador jogue duas cartas de desastre ao mesmo tempo contra o mesmo alvo.

Real: Muitos associam a torre da ilustração à Torre do Relógio de Wako, em Ginza, Tóquio. Isso gerou teorias de que um desastre ocorreria durante as Olimpíadas de Tóquio (previstas para 2020, ocorridas em 2021). Outros associam ao tsunami de 2011 no Japão.

Comentário Analítico: Esta é uma das cartas que mais exige "esforço" interpretativo. A torre de relógio é um símbolo genérico de centro urbano (como o Big Ben ou a torre de Wako), facilitando o encaixe em qualquer tragédia urbana real.

 

5. Population Reduction (Redução de População)

Population reduction

Ilustração: Uma caveira estilizada formada pela fumaça de uma cidade industrial, sugerindo extermínio em massa.

Ficção: Os Illuminati buscam reduzir a população mundial para torná-la "mais manejável".

Real: Conecta-se diretamente às teorias de conspiração sobre a Agenda 21 da ONU ou os planos de elites globais para o controle demográfico através de venenos, vacinas ou fome.

Comentário Analítico: Esta carta não prevê um evento específico, mas sim uma "ideologia conspiratória". Ela é o reflexo perfeito do livro The Illuminatus! Trilogy, que baseou o jogo e discute o conceito de "sacrifício de massa" para fins mágicos ou políticos.

 

6. Enough is Enough (Basta é Basta / Atirador de Elite)

Enough is Enough

Ilustração: A face de um homem loiro, de perfil, com uma expressão de raiva/determinação, e o que parece ser a visão de uma mira telescópica ou a ideia de um "basta" político.

Ficção: Uma carta que representa um assassino ou um momento de ruptura onde um líder é removido.

Real: Recentemente, em 2024, a carta viralizou devido à semelhança do personagem desenhado com Donald Trump e o atentado que ele sofreu em um comício.

Comentário Analítico: A semelhança física é notável, mas o arquétipo do "líder político loiro e raivoso" é comum na arte satírica americana dos anos 90, possivelmente inspirada em figuras conservadoras daquela década.

 

    Por mais que as ideias de conspirações e verdades secretas sejam atraentes e charmosas, estamos em tempos em que o discernimento deve ser utilizado sem moderação, os tempos atuais já são bem assustadores e não precisam de mais alarmes ou sensacionalismo. Então, vamos analisar de uma maneira um pouco mais ‘fria’ o que acontece com o reflexo das cartas desse TCG no mundo real.



© Moderno Bestiário - Arte Conceitual

 

O Teste de Rorschach Geopolítico

    De fato, o INWO não funciona como uma bola de cristal, mas sim como um Teste de Rorschach Geopolítico: suas cartas são manchas de tinta onde projetamos nossos traumas coletivos e paranoias sistêmicas, provando que a arte de Steve Jackson capturou não o que iria acontecer, mas o que sempre tivemos medo de que acontecesse.

    O Teste de Rorschach Geopolítico é um fenômeno de percepção psicológica aplicado à análise de eventos globais. Assim como no teste psicológico original — onde o paciente projeta seus próprios pensamentos e medos em manchas de tinta ambíguas — o observador do jogo Illuminati projeta eventos históricos reais em ilustrações genéricas de conspiração.

    A dinâmica dessa observação baseia-se em três pilares fundamentais:

1. A Ambiguidade Semiótica (A "Mancha de Tinta")

As cartas de Steve Jackson não são fotografias de eventos futuros, mas sim arquétipos de crise. Uma carta que mostra um "edifício explodindo" ou uma "doença se espalhando" é visualmente rica, mas propositalmente vaga. Ela funciona como um vácuo interpretativo: como não há detalhes específicos (datas, nomes de vírus ou coordenadas geográficas), a mente humana preenche as lacunas com o evento traumático mais recente que conhece.

2. O Viés de Confirmação e a Pareidolia

O cérebro humano é programado para identificar padrões, mesmo onde eles não existem (pareidolia). No contexto geopolítico, quando um evento chocante ocorre (como o 11 de setembro ou a COVID-19), buscamos desesperadamente uma explicação ou um "aviso prévio". Ao encontrar uma carta de 1994 que ecoa minimamente o evento, o cérebro ignora as 400 outras cartas do baralho que não aconteceram e foca apenas na "coincidência", validando o viés de que o jogo é profético.

3. A Ciclicidade das Crises Humanas

O "Rorschach Geopolítico" funciona porque a história é cíclica em seus desastres. Conflitos no Oriente Médio, epidemias, escândalos financeiros e atentados contra líderes são constantes históricas. Steve Jackson, ao pesquisar teorias da conspiração dos anos 70 e 80, mapeou os medos sistêmicos do século XX. Como esses medos continuam sendo os mesmos no século XXI, as cartas permanecem "atuais".

 

    A conclusão lógica é que o jogo não é um oráculo que prevê o futuro, mas sim um espelho distorcido do presente. Ele reflete as ansiedades permanentes da nossa sociedade. Se o observador vê "o plano dos Illuminati" em uma carta, ele está, na verdade, revelando sua própria desconfiança em relação às instituições e sua necessidade de encontrar ordem (mesmo que seja uma ordem sinistra) em um mundo que parece caótico e aleatório.

  O sucesso das profecias de Illuminati: New World Order deve-se ao fato de que os medos da humanidade em 1994 continuam sendo, infelizmente, os mesmos medos da humanidade no século XXI. O jogo não previu o futuro; ele apenas entendeu as falhas estruturais do presente.

    Steve Jackson não era um vidente, mas um excelente observador de tendências. Ele mapeou todos os cenários de crise que os estrategistas do Pentágono e os teóricos da conspiração discutiam na época: bioterrorismo, ataques a símbolos do capital, desastres climáticos e instabilidade política. Concebendo e guiando um trabalho muito inteligente, ele construiu uma lenda pop urbana fortíssima que continuará ecoando de tempos em tempos no imaginário das pessoas, pois infelizmente de certa forma os acontecimentos retratados nas cartas de INWO não parecem distantes de tornarem-se estranhos ou desatualizados...

 




Vagner Tadeu Firmino

Visite o Site oficial: Illuminati: New World Order


© Todos os direitos de texto e imagens reservados aos autores.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Creepypasta: O Experimento Russo do Sono

 Creepypasta: O Experimento Russo do Sono


Faaala, galera! 😛


    Para essa sexta-feira, dando continuidade aos projetos de vídeo, vou deixar aqui uma vídeo curto que publiquei no meu canal do Yutube  XDevil. Esse material, na verdade deveria ser publicado no meu outro blog, o Super Spooky, mas como já disse antes estou tocando diversos projetos sozinho e realmente não consigo fragmentar o Moderno Bestiário como havia planejado inicialmente.

    O vídeo de hoje faz parte de uma produção em vídeo de creepypastas da internet, embora não pareça produzir esses vídeo com uma qualidade maior do que a que encontramos atualmente realmente dá trabalho 😓. Então, embora não seja a idéia original, essas postagens continuarão por aqui mesmo...

    Já que falei do site, para atualizar vocês, a construção da plataforma continua e, como estou fazendo tudo sozinho, estou aprendendo muita coisa ainda e talvez por isso as coisas estão indo um pouco mais lentas.

    Enfim, vamos à postagem da semana! Espero que gostem.





    

    Agradeço pelo seu acesso, deixe seu comentário e compartilhe para dar aquela moralzinha para o canal, isso realmente me ajuda muito. Se for uma opção para você, considere seguir também meu canal no You Tube 😜


    Muito obrigado e falooou!




Todos os direitos de texto e imagem reservados ao autor.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O Peso da Última Pá

 Faaaala 😆 Tudo bem, galera?


    Aproveitando a sexta-feira 13, quero postar aqui para vocês uma historinha. Hoje vamos de um conto mais curtinho de horror para comemorar a primeira sexta-feira 13 do ano.


    Espero que gostem e já deixo aqui meu agradecimento por continuarem acompanhando o blog 👊 Falouuu 😛

O Peso da Última Pá


O Peso da Última Pá ©



       O vento úmido e desconfortavelmente morno do entardecer trazia consigo o cheiro de terra revirada e decomposição, enquanto chacoalhava as últimas folhas resistentes ao fim da estação, que insistiam em se prender aos galhos secos como os dedos de um cadáver. De uma reentrância carcomida em uma cripta próxima, uma ave de plumagem cor de piche emitia um grasnado lugente, parecendo capaz de amedrontar até os mortos.

      A alguns metros dali, sob a luz doentia do crepúsculo, um homem magro trabalhava. Um cigarro apagado pendia no canto de seus lábios finos, quase fundindo-se à palidez de sua pele, ele golpeava o solo encharcado com uma velha pá de ferro, o som do metal cortando a terra era o único ritmo daquele lugar esquecido. Ali, ele preparava a ultima morada de alguém em um esforço silencioso e rítmico, quase uma prece.

      Observei-o com uma curiosidade mórbida. Seria aquela a minha cova? O pensamento não me trouxe medo, apenas uma dúvida melancólica enquanto as dimensões pareciam ficar cada vez mais exatas para o meu repouso.

    De repente, o frio. Uma mão gélida e de textura pegajosa apertou meu braço com uma força surpreendente, o choque térmico me trouxe a lucidez num estalo e um reconhecimento amargo:  Era nossa morada que estava sendo aberta... Era dele e minha.

     Minha mente havia pregado uma peça, perdendo-se em devaneios enquanto o corpo repetia o movimento mecânico. Recuperei o fôlego e senti o peso do cabo de madeira em minhas palmas calejadas. O esforço físico era real: o suor escorria por minhas têmporas, misturando-se à umidade do ar. Fui eu quem cavou cada centímetro daquele buraco.

         Mas então, quem teria me tocado o braço agora há pouco?

         Lentamente, desviei o olhar da vala e olhei para o lado. A percepção me atingiu como um golpe de pá no peito. Ali, ao lado da vala, minha própria alma assistia ao meu corpo decadente expressando uma piedade infinita.

         Éramos dois fragmentos de uma mesma existência azíaga: um que ainda sentia o peso do ferro e o frio da chuva, e outro que, já desprendido da carne cansada que ainda insistia em trabalhar, observava o próprio sepultamento. Assistia de fora o esforço inútil de enterrar a si mesmo.

         Eu não era apenas o coveiro, eu era o espectador de minha própria condenação; eu era o braço que cavava, a mão que tocava e os olhos que tudo viam, eu era o coveiro e o defunto. Ao mesmo tempo eu era o carrasco e a vítima da própria brevidade abrindo com as mãos firmes o solo que, em breve, abraçaria meu último suspiro de melancolia dividido entre o terra úmida e a eternidade cinzenta.



Texto por Vagner Tadeu Firmino

A Triste Figura


Todos os direitos de texto e imagem são do autor.




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Stranger Things: Tales From ’85

 

Stranger Things: Tales From ’85

Stranger Things: Histórias de 85

(Pode ler em paz que não tem spoiler)


Fala galera, tudo certo?

    Faz bastante tempo que não falo de séries por aqui e como estou avaliando os novos conteúdos que farão parte do novo site (postagem sobre Novos Rumos), estava procurando uma série que me fizesse vontade de escrever sobre, e somente aí percebi como faz tempo que nada de bom acontece para meu gosto em séries...

    Não é que eu seja tão exigente ou seletivo assim, eu gosto de bastante porcaria mesmo 😝, mas nem assim algo estava chamando minha atenção. Nem mesmo a temporada final de Stranger Things despertou grande interesse, claro que eu queria ver e finalizar de vez a série que durante três temporadas foi minha favorita de todos os tempos, mas nada desesperador. Ainda bem, pois mesmo que eu tenha mais gostado do que desgostado, a decepção foi inevitável.


Poster Season 5 - Fonte: Divulgação


    Eu entendo que a época é outra, que aquela ‘novidade de coisas velhas’ trazidas pela primeira temporada já passou e que a memória afetiva geralmente nos prega peças deixando as coisas muito melhores na lembrança do que realmente eram, mas a degringolada galopante da decadência das duas últimas temporadas era gritante demais... Já na quarta temporada era visível que a turminha mais amada de Hawkins não estava mais curtindo aquilo tudo (na verdade isso já dava para começar a perceber na terceira temporada). A quinta temporada foi a grande demonstração de que tudo estava sendo feito pela obrigação e pelo capital.

    Não vou ficar criticando interpretação de um ou de outro, cara, essa realmente não é minha intenção, mas é impossível não perceber a má vontade de grande parte do elenco em boa parte dessa última temporada, a turma já não estava mais tão legal assim e a falta de sinergia foi escancarada entre eles. Durante os episódios eu não conseguia deixar de pensar no Harrison Ford e sua visível má vontade em fazer Han Solo ou Indiana Jones nos últimos filmes, estar em um lugar por pura obrigação ou necessidade é realmente horrível. Participar de algo sem curtir é literalmente o fim.

    Bem, vamos voltar ao que me chamou a atenção para escrever: As Histórias de 85

Não dá negar que Stranger Things foi o fenômeno que redefiniu a nostalgia e parte da estética de suspense na última década e agora está prestes a nos dar um ‘novo capítulo’: A Netflix anunciou oficialmente a estreia de Stranger Things: Tales From ’85, será uma série animada que expande o universo criado pelos irmãos Duffer, e terá estreia em 23 de abril de 2026.

     A animação tentará resolver o problema da Netflix em relação ao envelhecimento e má vontade do elenco (😜), mas ao mesmo tempo pode criar ao menos mais um problema gerando furos no rolê principal da série. Por exemplo, já sabemos que haverá ao menos uma nova personagem ao lado de El e sua galerinha, mas como será explicada sua aparição e principalmente seu sumiço quando o rolê da animação emendar com o rolê da série principal é algo que já começa a trazer preocupações.

    Falando da nova personagem, ela será Nikki Baxter e foi descrita como como uma "inventora" de moicano rosa, que promete ser fundamental na luta contra as ameaças que emergem do solo congelado.

E isso nos leva ao período em que a animação se passará:

O Retorno ao Inverno de 1985

    A série animada funcionará como uma "história não contada" e estará situada em um momento crucial da cronologia original: o inverno de 1985. Sendo assim já percebemos que os eventos ocorrem no intervalo entre a 2ª e a 3ª temporada, logo após a galerinha ter fechado o portal do Mundo Invertido, mas antes da inauguração do Shopping Starcourt.


Fonte: Divulgação


    Nesse período, Hawkins está sob um inverno rigoroso, e os heróis — Eleven, Mike, Will, Dustin, Lucas e Max — tentam uma “vida normal" entre sessões de Dungeons & Dragons e batalhas de bolas de neve. No entanto, como bem sabemos pelos eventos gerais da série original, a calmaria em Hawkins é sempre o prenúncio de uma tempestade paranormal. Algo terrível desperta sob o gelo.

    Originalmente, os irmãos Duffer imaginaram o projeto com um estilo "desenhos de sábado de manhã" dos anos 80, como He-Man (um ótimo exemplo sobre como a memória afetiva deixa as coisas melhores do que realmente eram) e Scooby-Doo. Entretanto, durante o desenvolvimento liderado pelo showrunner Eric Robles, a equipe percebeu que o tom de Stranger Things exigia algo menos doce e inocente, Stranger Things deve ter boas doses de peso chegando muito perto de ser viceral. Criou-se então uma animação em CG de alta qualidade com um toque estilizado, inspirado na arte de Meybis Ruiz Cruz (ArtStation dela aqui). Segundo as declarações, os personagens manterão suas características icônicas, mas ganharão uma expressividade (galera, sem maldade) que permitirá explorar temas sombrios e perigos reais — afinal, a série já avisou: neste novo formato, nem todos podem sobreviver.

    Vale dizer que os atores originais não foram chamados para dublar suas versões animadas, ainda não sei dizer se isso será bom ou ruim, apenas posso dizer que nesse momento isso não está me importando.

    Blz, mas e aí? Vai valer a pena? Bom, aí somente o tempo para dizer. Honestamente eu espero que seja legal, vou assistir esperando me divertir e sem esperar grande impacto, aprendi que com a produção de conteúdo visual atual, manter altas expectativas pode destruir a experiência final.

    Você pode não ter gostado das três últimas temporadas, ou das duas últimas como é o meu caso, mas temos que concordar que quando estreou em 2016, Stranger Things não foi apenas mais uma série pretenciosa na Netflix; foi uma declaração de amor ao cinema de Spielberg, Stephen King e John Carpenter. A série resgatou de maneira carinhosa e nostálgica, para velhinhos como eu, a estética dos anos 80 — dos walkie-talkies às bicicletas BMX, passando pelos grupinhos de amigos jogando RPG, indo a fliperamas e videolocadoras — e transformou o "Mundo Invertido" em um conceito cultural onipresente.

    Mais do que monstros de CGI (como o Demogorgon ou o Devorador de Mentes), a força da série, mesmo que perdida nos últimos anos, sempre esteve na dinâmica de grupo e no crescimento emocional de Eleven e seus amigos. A animação pretende capturar justamente essa essência: o poder da amizade contra o desconhecido, mantendo viva a chama de uma franquia que se tornou o maior pilar da Netflix.

    Então, preparem seus Eggos, sincronizem seus relógios e sintonizem seus rádios. O inverno em Hawkins está chegando, e desta vez, o mistério ganha cores e traços que prometem honrar cada segundo da jornada original.

 

Assista ao Teaser :



Sempre é bom saber mais:

·         IMDb Stranger Things

·         TUDUM by Netflix

·         Meybis Ruiz Cruz no ArtStation

 

    E aí, qual sua opinião sobre Stranger Things e essa nova animação? Deixa seu comentário. Se gostou, considere compartilhar a postagem para dar aquela moralzinha ao canal.

Falooou!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Feliz 2026 e os Rumos do Bestiário

 FELIZ 2026 E OS RUMOS DO BESTIÁRIO


Os rumos do Bestiário


         Fala galera, tudo bem?


    Sei que estou um pouco atrasado na postagem (Se é que isso é novidade rsrs), mas eu não posso deixar de desejar um Feliz 2026 para vocês, e de agradecer por estarem junto com comigo nesse blog mesmo com todos os problemas que tenho enfrentado nos últimos anos e a baixa quantidade de conteúdo novo... Desde minha última postagem percebi que os acessos ao blog aumentaram e isso é uma grande vitória, pois é um trabalho que está na contramão da realidade da internet hoje, mas esse será o assunto de uma postagem em breve.

    Agradeço muito o acesso e o apoio de vocês, muito obrigado!

    2025 foi o ano que resolvi desenhar alguns planos para retomar o blog, depois de um período muito difícil que iniciou com a pandemia no final de 2019 que tornou todo o processo pelo que passei ainda mais difícil, mas apesar de tudo e da torcida contrária, veja só, eu consegui. Quem diria, não é mesmo? 😃

    Neste ano a frequência de postagens aumenta, tenho uma boa quantidade de material já produzido e algumas ideias sobre novos temas. E é aí que uma mudança fundamental começa: A migração de plataforma.

   Sim, galera. Mudaremos de plataforma em breve, a nova plataforma será capaz de abranger um trabalho maior e com mais suporte para a utilização de outras mídias. O Blogspot foi bom para mim durante todos esses anos e sempre conseguiu me entregar tudo o que estava dentro do escopo do que eu estava apto a fazer, mas agora eu preciso de algo um pouco maior e mais abrangente, por isso teremos dentro de alguns meses uma nova casa, um novo domínio e novos conteúdos.

     Mas tranquilo, você será notificado com antecedência e todos os avisos e novidades serão postados aqui primeiro. Não pretendo tirar o MB do ar, ele vai continuar aqui e ainda por bastante tempo será a ponte entre os trabalhos mais antigos e os novos. Esse blog tem muita história, é um grande retrato da minha vida, ele conta minha história por cerca de duas décadas então não dá para apagar da noite para o dia...

    Bom, mais uma vez eu agradeço sua companhia por mais um ano e desejo um grande 2026 para vocês! Vamos lá que o ano começou 🙏



segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Creepypasta: A Mulher Sem Expressão

 A Mulher Sem Expressão

    Fala pessoal, vamos para mais uma postagem? Como parte da idéia de revisitar textos antigos do blog, leia sobre clicando aqui, tenho passados boas horas revendo postagens separando aquelas que eu acho que merecem um tratamento mais atual e cuidadoso, e entre conteúdos antigos, suspensos e muitos outros que realmente não valem a pena tentar fazer algo por eles agora a creepypasta "A Mulher Sem Expressão", que na época coloquei o título apenas como "A Expessão" me chamou a atenção merecendo ser atualizada.

    Antes de começarmos, quero agradecer a vocês que estão acessando, lendo e enviando comentários. Obrigado de coração, isso me ajuda a manter a cabeça no lugar e a continuar levando o blog adiante mesmo com todas adversidades e dificuldades que a própria internet coloca para nós que somente sabemos contar histórias escritas, não somos exímios produtores de vídeos verticais e ainda por cima somos tímidos demais para aparecer em telas 😓. O apoio que aos poucos vou voltando a receber nos trabalhos do blog realmente fazem uma grande diferença na minha vida e, espero sinceramente que também possa fazer alguma diferença na vida de vocês.

    Bom, sem mais demora, vamos lá!


A Mulher Sem Expressão, Hospital Cedar-Senai - 1.972

    Em junho de 1972, uma mulher apareceu no Hospital Cedar-Senai, usando vestes brancas manchadas de sangue. Isso não era estranho para um hospital onde as pessoas davam entrada em condições extremas devido a acidentes, por exemplo. Porém, duas coisas teriam feito com que as pessoas que viram essa mulher sentissem desconforto, náuseas e uma grande necessidade de se afastar dela.

    A primeira é que ela não parecia exatamente humana. Ela se parecia com um manequim, mas tinha a fluidez de movimentos de um ser humano normal. Seu rosto era fiel às feições humanas, assim como um bom manequim, também como uma fiel boneca de cera a estranha figura que adentrara ao hospital não apresentava sobrancelhas e nem qualquer sinal ou marca de expressão. A segunda é que havia um pequeno filhote de gato preso em suas mandíbulas, tão fortemente apertado, que não se via nenhum dente enquanto o sangue ainda escorria do filhote para o vestido, enquanto atendentes do hospital ainda relutavam em se aproximar ela puxou o filhote para fora de sua boca e o jogou de lado desmaiando logo em seguida.

    Desde o momento em que entrou no hospital até ser levada para um quarto ela estava completamente calma, sem expressão e imóvel. Mesmo assim os médicos acharam melhor imobilizá-la até que a polícia, já aletada e chamada até o local, pudesse chegar. A equipe de atendimento do hospital não foi capaz de obter qualquer tipo de resposta da mulher e a maioria dos membros da equipe se sentia muito desconfortável em olhar diretamente para ela.

    Tão logo os enfermeiros a colocaram na cama e iniciaram o afivelar da imobilização ao leito, ela reagiu com uma força descomunal. Dois membros da equipe tiveram que segurá-la enquanto a mulher forçava o corpo para levantar-se mantendo no rosto a mesma expressão vazia. Enquanto enfermeiros tentavam conter a estranha figura, ela voltou a atenção para o que médico preparava uma sedação, sua face até então imóvel e sem expressão se contorceu e inesperadamente exibiu um sorriso, um sorriso perturbador que fazia com que ela parecesse ainda mais assustadora ao revelar seus dentes longos e pontiagudos como os de uma fera.

    Uma médica que acabara de entrar no quarto gritou aterrorizada prostrando-se em um canto, enquanto o restante da equipe vacilava no intento de manter a mulher imobilizada. O médico que estava pronto para aplicar a sedação, vendo o sorriso sádico de dentes afiados perguntou quase que de maneira retórica: “Que diabos é você?” Ela inclinou o pescoço para observá-lo, ainda sorrindo. Houve uma longa pausa, a segurança já alertada podia ser ouvida correndo pelo corredor.

    A mulher se lançou para frente, afundando os dentes na garganta do médico, dilacerando-a profundamente, todos se afastaram assustados enquanto o médico caia no chão engasgando-se com seu próprio sangue. Ela se levantou e inclinou sobre ele, aproximando seu rosto do dele, enquanto a vida do médico se esgotava em agonia. Então, com uma voz cavernosa ela disse como se estivesse respondendo à pergunta que o médico fizera segundos antes: “Eu…sou…Deus”. 

    Os olhos do médico se apagaram, sua agonia havia terminado. Amedrontados e encolhidos pelos cantos do quarto os membros da equipe médica observavam a mulher que calmamente se afastava indo de encontro aos seguranças... Nenhum desses seguranças sobreviveu. Uma das enfermeiras, mais tarde, durante seu depoimento às investigações, chamou aquela grotesca figura de “A Mulher Sem Expressão”, ela nunca mais foi vista.



Para ler a publicação original postada nesse blog em 2013, 👉 clique aqui 👈


Muito obrigado pela sua leitura, espero que tenha gostado 💀😊🙌


Fonte do texto e da Imagem: Internet
Edição e adaptação do texto: Vagner T. Firmino
Edição de imagens: Vagner T. Firmino

Todos os direitos de texto e imagem são reservados aos autores

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Conto: Os Pecados de Ashmouth

Os Pecados de Ashmouth


Os Pecados de Ashmouth


    Em Ashmouth, uma vila esquecida pelos mapas modernos, o luar mal iluminava as ruas de paralelepípedos cobertas de musgo. As vozes de seus habitantes sussurravam segredos nas soleiras das portas e janelas com a mesma devoção com a qual faziam suas preces mal compreendidas, dizia-se que, quando a neblina se erguia, algo perambulava pelos becos mais sujos e escuros: uma coisa informe, de olhos escuros e pés que deixavam rastros negros.

    Na taverna de pedras úmida e assoalho de madeira rangente, reuniam-se os mais célebres desocupados e desesperançosos homens do vilarejo, toda a enfadonha trupe de maltrapilhos se reunia ali todos os dias ouvindo as histórias sinistras do decadente Lorde Aldridge. Filho de ricos donos de terras produtoras de tabaco, o deserdado, endividado e quase desabrigado lorde vivia de embebedar-se e contar as histórias de maldição que ouvira de seus antepassados.

    Aldridge sussurrava sobre pecados enterrados sob as fundações da capela. Cada maledicência parecia despertar algo terrível além das paredes de pedra. Cada rito profano executado no passado pelos fundadores fazia os subterrâneos revolverem-se na ânsia de expelir um mal antigo há muito tempo envolvido no lodo das úmidas cavidades da terra sob Ashmouth. Aos fundos da capela abandonada, contava ele, no cemitério pantanoso e fétido onde ninguém ousa visitar as catacumbas, estava o resultado dos piores atos de Ashmouth, pronto para se erguer e cobrar a dívida moral de cada um dos desafortunados que não conseguiam sair daquele lugar...




   Ashmouth sobrevivia em meio ao medo do despertar iminente do caos, seus habitantes pouco falavam, a fé estava abandonada junto aos detritos e as moscas que infestavam as ruas insalubres do lugar. Todos os lugares eram quietos, as pessoas pouco falavam, mas quando o faziam era predominantemente por meio de sussurros e frases inacabadas. Aquela era a cidade no meio do nada, o lugar esquecido no fim-do-mundo.

   Foi esse cenário desolado e imundo que a jovem cartógrafa Elinor encontrou ao chegar no vilarejo para desenhar seus limites, cumprindo as ordens de seus superiores foi designada para onde nenhum outro cartógrafo Real quis ir. Com seus aparatos e os dedos sujos de tinta Elinor perambulava por todos os cantos e becos de Ashmouth conhecendo a decadência do lugar e indignando-se com as pessoas sujas e de andar arrastado.

    Na ânsia de ver-se livre logo daquele lugar, a cartógrafa seguia com os afazeres de seu expediente até as horas mais avançadas, e em uma dessas noites ela voltava com um tanto de aversão para a única estalagem do lugar, no andar de cima da taverna, onde ela já imaginava o repugnante Aldridge já entorpecido dirigindo gracejos a ela com o hálito fétido de bebidas baratas. Tendo consigo apenas uma lâmpada à óleo para iluminar seu retorno, era uma noite tão escura quanto fria e silenciosa, Elinor deparou-se com um rastro singular que pelo pouco que conseguia enxergar saia de um beco e seguia para outro. No mesmo instante deu-se conta que não havia mapeado ou anotado em seu livro aquela entrada estreita e deteriorada, seguindo então o rastro pelo caminho desconhecido a moça foi conduzida desavisadamente até o cemitério abandonado.

    Naquele lugar macabro a luz fraca que ela carregava não era capaz de vencer a densidade da escuridão e Elinor não pôde perceber as palavras profanas que ossos antigos e quebrados cuidadosamente dispostos formavam no solo, talvez tenha sido melhor assim... Certas palavras nem mesmo podem ser lidas sem expor um desavisado leitor aos perigos de obscuros ritos lúgubres. O vestido da jovem tremulava com o vento congelante enquanto ela tentava decidir se seguia em frente ou voltava, mas não teve tempo para a decisão. Logo ela percebeu vultos que se contorciam entre as lápides partidas, cada uma daquelas pedras mortuárias parecia exibir uma imagem embaçada e nevoeirenta enquanto as formas estranhas se contorciam ao redor delas chafurdando no solo lamacento.

   Ela teve a infelicidade de encontrar algo mais assustador e repugnante que aquilo tudo o que já havia presenciado, uma coisa mais asquerosa que aquelas pessoas que embebedavam-se, sussurravam e balbuciavam coisas estranhas sobre um passado remoto. Sem saber Elinor observava as sombras do início do despertar daquilo que os miseráveis habitantes de Ashmouth tanto temiam.




    Inexplicavelmente a pobre cartógrafa teve sorte, mesmo apavorada ela conseguiu sair dali afastando-se antes que todas aquelas figuras retorcidas deixassem totalmente os pútridos espaços de terra debaixo daquele cemitério lamacento. Correndo aos trambolhões e quase derrubando as parafernálias que carregava desajeitadamente, a jovem conseguiu chegar na taverna. Tudo lá estava escuro e silencioso, os costumeiros vagabundos surpreendentemente não estavam lá, nem mesmo a desdentada anciã dona do local estava atrás do balcão e nenhuma única vela estava acessa. Ainda tremendo de medo e chorando, Elinor tateou pela escada escura até seu quarto e lá trancou-se finalmente entregando-se às lágrimas desesperadas até que o ar lhe faltasse.

    Durante a noite, Elinor teve sonhos apavorantes com criaturas sinistras saindo dos becos e dos subterrâneos de Ashmouth. Nesses pesadelos os habitantes do vilarejo tentavam fugir de criaturas perseguidoras, mas inevitavelmente eram consumidos pelos monstros até que ela mesma passava a ser perseguida por uma criatura gigantesca e disforme.

    Sobressaltada acordou pela manhã ainda sentindo-se perseguida como nos sonhos, ajeitou-se, pegou as parafernálias de cartografia e desceu as escadas rangendo as madeiras desgastadas sob seus pés. A maioria dos homens de sempre estavam lá sentados pelos cantos em silêncio, a maioria já tomando álcool e fumando tabaco de má qualidade, mas nenhum deles sequer olhou para ela, o que a fez perceber que Lorde Aldridge não estava entre os presentes.

    A taverneira desgrenhada estava resmungando sozinha no balcão enquanto esfregava um pano imundo na tentativa de limpar algumas manchas que Elinor não pôde definir do que seriam, no canto um dos ébrios emitiu um suspiro tão carregado de tristeza e consternação que fez com que ela olhasse na direção do homem. Entre as sombras e a fumaça de tabaco ela viu marcas recentes por todo o rosto do homem que percebendo que estava sendo observado baixou ainda mais a cabeça tentando esconder o rosto.

    Durante os dias seguintes de seus serviços naquele maldito lugar, Elinor percebeu uma comunicação maior entre os habitantes, entre sussurros engasgados ela ouviu histórias desesperadas sobre visitas noturnas, crianças aprisionadas em pesadelos, homens acordando com o pescoço torto e olhos revirados, mulheres enlouquecendo e inúmeros casos de pessoas que estavam se mutilando como a expiar algum pecado passado.

    Elinor começou a juntar os relatos, e mesmo com todo o medo que sentia, aquilo tudo começou a atrai-la de uma maneira que não era possível explicar. Os relatos e os desaparecimentos, incluindo o de Lorde Aldridge, a instigava a buscar respostas, respostas essas que ela sabia que não obteria dos moradores que mesmo mais abertos motivados pelo desespero, continuavam dizendo histórias mutiladas.

    Pesadelos recorrentes a afligiam na mesma proporção em que os acontecimentos tenebrosos continuavam a acontecer naquele lugar. O vilarejo continuava tomado por uma atmosfera enegrecida que não cedia nem mesmo ao sol alto do meio-dia, as pessoas andavam cada vez menos pelas ruas e quando o faziam cobriam os rostos com lenços e bandagens como se quisessem se esconder de alguém, ou de algo... Não poucos recomendavam que ela largasse o trabalho e fosse embora enquanto ainda era possível e nunca mais sequer pensasse naquele lugar.

    Em uma noite, sem conseguir coragem para ao menos tentar conciliar o sono, ela repassava sem atenção suas anotações e desenhos cartográficos quando percebeu que havia um som diferente ecoando não muito distante, era como uma cantiga de ritmo estranhamente cadenciado e balbuciado por diversas vozes. Tomada pela curiosidade e indignação apanhou um casaco e deixou o quarto e caminhou pelas ruelas vazias e escuras seguindo o som que ali da rua podia ser ouvido mais claramente e causava e ela estranhos engulhos.

    Tomou então o caminho que desembocava no cemitérios atrás da capela despedaçada, iluminando o caminho com sua lâmpada a óleo encontrou uma entrada que não havia percebido antes, era uma passagem para uma cripta sob os escombros da capela. Nos umbrais carcomidos inscrições em latim rezavam sobre rituais de purgação nunca finalizados. E finalmente, para o prazer dos malditos que aguardavam nas sombras, ela começou a ler as palavras que nunca deveria ter lido.

    Sob a luz mortiça, Elinor descortinou o sigilo que mantinha uma criatura presa, esse claustro era tecido pelos próprios medos da comunidade e ao mesmo tempo quanto maior o pecado de cada habitante ou de seus antepassados, mais forte o monstro aprisionado se tornava. Ao terminar de recitar a última passagem proibida, a terra tremeu e uma forma monstruosa irrompeu, membranas escorregadias estendendo-se como véus soturnos tomando conta de cada pedaço da vila, de dentro para fora, de seu centro até seus limites.

    Elinor sentiu cada pecado de Ashmouth pulsar naquilo: mentira, cobiça, traição, assassinato, tortura, profanação e uma entrega cega à adoração de criaturas nefastas. Quando a besta se ergueu em sua altura descomunal, a pequena cartógrafa sentiu nos olhos da coisa todas as dores não vingadas. Lutando contra o pavor, lembrou de versos religiosos aprendidos na infância e já há muito tempo esquecidos em canto de sua mente, ela gritou os Versos da Renúncia e o horror retrocedeu escondendo-se na névoa até não passar apenas um sopro gelado.

    Na manhã seguinte as ruas traziam um silêncio opressor, o lugar todo parecia oco como se algo tivesse escapado do subterrâneo. Elinor partiu com seus mapas, porém registrou, no último livro, um rastro de contornos que não correspondiam a rios ou estradas — uma cicatriz negra que serpenteava pela vila inteira.

    Ao entardecer do dia seguinte, a cartografa que parecia ter envelhecido alguns anos durante os poucos dias em que esteve em Ashmouth, folheava seu diário antes de adormecer esfalfada pela situação insólita que vivera, quando sem conseguir conter lágrimas de desespero, descobriu garranchos medonhos rabiscados nas últimas páginas do caderno. Com um tremor incontrolável e uma sensação fria e pegajosa ela decifrou: “Não somos apenas reflexos. Somos a sombra do pecado eterno”.

    Na penumbra do lado de fora, um par de olhos vazios surgiu na janela, aguardando o renascer da culpa não redimida, pois ela havia libertado o terror informe e impiedoso que Ashmouth tanto temia.




 Os Pecados de Ashmouth - Por Vagner Tadeu Firmino

Reservados ao autor todos os direitos de texto e imagens.