sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O Peso da Última Pá

 Faaaala 😆 Tudo bem, galera?


    Aproveitando a sexta-feira 13, quero postar aqui para vocês uma historinha. Hoje vamos de um conto mais curtinho de horror para comemorar a primeira sexta-feira 13 do ano.


    Espero que gostem e já deixo aqui meu agradecimento por continuarem acompanhando o blog 👊 Falouuu 😛

O Peso da Última Pá


O Peso da Última Pá ©



       O vento úmido e desconfortavelmente morno do entardecer trazia consigo o cheiro de terra revirada e decomposição, enquanto chacoalhava as últimas folhas resistentes ao fim da estação, que insistiam em se prender aos galhos secos como os dedos de um cadáver. De uma reentrância carcomida em uma cripta próxima, uma ave de plumagem cor de piche emitia um grasnado lugente, parecendo capaz de amedrontar até os mortos.

      A alguns metros dali, sob a luz doentia do crepúsculo, um homem magro trabalhava. Um cigarro apagado pendia no canto de seus lábios finos, quase fundindo-se à palidez de sua pele, ele golpeava o solo encharcado com uma velha pá de ferro, o som do metal cortando a terra era o único ritmo daquele lugar esquecido. Ali, ele preparava a ultima morada de alguém em um esforço silencioso e rítmico, quase uma prece.

      Observei-o com uma curiosidade mórbida. Seria aquela a minha cova? O pensamento não me trouxe medo, apenas uma dúvida melancólica enquanto as dimensões pareciam ficar cada vez mais exatas para o meu repouso.

    De repente, o frio. Uma mão gélida e de textura pegajosa apertou meu braço com uma força surpreendente, o choque térmico me trouxe a lucidez num estalo e um reconhecimento amargo:  Era nossa morada que estava sendo aberta... Era dele e minha.

     Minha mente havia pregado uma peça, perdendo-se em devaneios enquanto o corpo repetia o movimento mecânico. Recuperei o fôlego e senti o peso do cabo de madeira em minhas palmas calejadas. O esforço físico era real: o suor escorria por minhas têmporas, misturando-se à umidade do ar. Fui eu quem cavou cada centímetro daquele buraco.

         Mas então, quem teria me tocado o braço agora há pouco?

         Lentamente, desviei o olhar da vala e olhei para o lado. A percepção me atingiu como um golpe de pá no peito. Ali, ao lado da vala, minha própria alma assistia ao meu corpo decadente expressando uma piedade infinita.

         Éramos dois fragmentos de uma mesma existência azíaga: um que ainda sentia o peso do ferro e o frio da chuva, e outro que, já desprendido da carne cansada que ainda insistia em trabalhar, observava o próprio sepultamento. Assistia de fora o esforço inútil de enterrar a si mesmo.

         Eu não era apenas o coveiro, eu era o espectador de minha própria condenação; eu era o braço que cavava, a mão que tocava e os olhos que tudo viam, eu era o coveiro e o defunto. Ao mesmo tempo eu era o carrasco e a vítima da própria brevidade abrindo com as mãos firmes o solo que, em breve, abraçaria meu último suspiro de melancolia dividido entre o terra úmida e a eternidade cinzenta.



Texto por Vagner Tadeu Firmino

A Triste Figura


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