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| J. Nas Sombras do Quarto |
Faz tempo que não
escrevo uma fanfic, então como estou desenferrujando várias atividades de antes
do caos (rsrs), fanfic me pareceu legal. Sempre curti muito criar histórias baseadas em lendas urbanas e digitais e em Arquivo X. Colaborar não oficialmente,
escrevendo e criando histórias apenas mesmo por ser um fã da lore, por gostar
dos personagens e assim conseguir ajudar a despertar o interesse de outras
pessoas a divulgar e difundir o conteúdo original e talvez incentivá-la a
escrever fanfic também é algo que eu acho muito legal.
Ainda estou resgatando
bastante material escrito em cadernos e folhas soltas, mas tenho certeza de que
pouco disso poderá ser publicado, tem muita coisa ruim e mal escrita ali no
meio e reescrever realmente é uma atividade enfadonha para mim... Bem, inaugurando
uma tag de fanfic aqui no blog, segue para leitura a fanfic “J.” inspirada na
lenda digital de Jeff the Killer.
Confesso aqui que não
sou um fã da creepypasta de Jeff the Killer, mas garanto que foi estranhamente
divertido escrever sobre sem gore e excesso de violência descritiva. Claro que
existe um fator psicológico forte no meu texto, afinal isso faz parte do meu
estilo de escrita, e em tempos em que temos que tudo é difícil, recomendo
discernimento (assim como recomendo isso para tudo na vida), isso é uma obra
ficcional. É uma leitura recreativa, não deve ser levada para o coração.
Enfim, espero que
goste da fanfic, comenta aí o que achou e vai acompanhando o canal do Moderno
Bestiário no Youtube que logo teremos um vídeo dessa fanfic por lá.
J.
Uma Fanfic Baseada Na Lenda Digital de "Jeff The Killer"
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| J. |
Caminhos gastos, portas que
rangiam com o vento, luzes que piscavam como olhos cansados. J. cresceu ali,
entre becos onde a escuridão parecia acumular segredos e escárnios que viravam lâminas.
Quando pequeno, gostava de contar estrelas; quando cresceu, aprendeu a contar
memórias que só faziam machucá-lo.
No começo tudo foi pontual:
empurrões no recreio, apelidos que magoavam, portas fechadas e humilhações em
corredores vazios. Aprendeu a andar com cuidado pelas ruas sujas do bairro, a
baixar a cabeça quando passava por valentões na escola.
Em casa, o silêncio também
ensinava. Havia um irmão que foi punido por rir alto demais. Havia pais que
discutiam de maneira violenta e incessante. As noites eram uma sucessão de
portas trancadas, brigas e castigos.
A primeira vez que J. percebeu
que algo dentro dele mudava, era inverno e as ruas cheiravam a humidade,
sujeira e fumaça. Ele foi empurrado contra um muro por três valentões com humilhações
que não tinham fim. Levou socos, empurrões e escutou ofensas. Não foi apenas a humilhação;
foi a sensação de que, em cada ataque dirigido contra seu corpo e seu espírito,
um pedaço de sua vida se partia e jamais poderia ser remendado, nada poderia
colar as partes para torná-lo inteiro novamente.
Quando se cansaram, os
valentões o deixaram ali sozinho, humilhado e envergonhado. J. olhou para as
suas mãos e viu nelas pedaços de si mesmo. Não sentia dor na carne; sentiu um
buraco pulsante no espírito dilacerado. A partir daquele momento, J. era outro.
As mudanças inicialmente eram
imperceptíveis para quem olhava distraído, mas eram colossais para ele que as
vivia. Sua pele perdeu a cor do dia e tomou um tom de luar esmaecido. Os olhos,
antes inquietos, passaram a fixar pequenos pontos no ar, como se vissem diagramas
e símbolos secretos nas sombras. J. parou de fugir; começou a andar como se
soubesse caminhos que os outros ignoravam.
Ele aprendeu a escrever
mensagens em códigos que só ele entendia: Símbolos riscados em paredes, frases
cortadas em cadernos velhos, um traço repetido em cantos sombrios... Não era
exibicionismo; era uma forma de deixar pistas — talvez para si mesmo, talvez
para alguém que viesse depois.
As pequenas marcas se
espalharam pela cidade como tatuagens de sombra: Um símbolo na entrada da
escola, uma palavra desconhecida numa árvore, uma página arrancada de um livro
na biblioteca. As pessoas notavam, comentavam, e depois esqueciam. J. observava
tudo isso com a calma de quem planta uma semente e espera que uma frondosa
árvore cresça e mude a paisagem para sempre.
J. resolveu testar o mundo.
Nada de espetáculos, nada de tragédias épicas. Ele preferia os gestos pequenos
e precisos. Ele começou a visitar casas, a soprar palavras na durante o sono
das pessoas, a deixar bilhetes que eram, ao mesmo tempo, ameaças e convites. Suas
ações sussurravam, e o sussurro corria pela cidade como um vento frio. As
vítimas não se transformaram em monstros da noite, pior que isso: tornaram-se inquietas, insones, com a sensação
de que algo as observava no canto de seus quartos.
Não era prazer o que movia J.,
e talvez isso fosse o mais perigoso: havia uma lógica fria, uma arquitetura de
intenções que visavam apenas dissolver o conforto dos outros. Cada sorriso
arrancado das bocas alheias era uma pedra posta no fundo de um poço onde ele
observava a própria imagem afundar. Às vezes, por minutos longos, J. via
refletido no rosto de quem temia uma verdade que não sabia nomear — a prova de
que, naquele mundo, a violência não precisava ser ruidosa para ser completa.
Aos poucos todos os pequenos
atos foram se acumulando e dando forma a algo grande, escuro e assustador. Conversas
veladas sussurravam sobre um rapaz de rosto pálido caminhando pelas sombras. Notícias
circularam sob manchetes menores que não sobreviveram à pressa do dia seguinte,
mas que fixaram na memória coletiva um aviso: Algo espreitava na escuridão.
J. não se tornou lenda por um
ato espalhafatoso; tornou-se sombra silenciosa. Ser lembrado e ser temido não
nasceu de um único momento, mas em muitos pequenos cortes que não cicatrizavam.
De quando em quando, alguém encontrava uma das marcas que ele deixara e, se
olhasse com cuidado, via ali mais que vandalismo — via um mapa pessoal de
desespero e vingança.
Numa noite sem vento, quando a
cidade parecia respirar apenas por inércia, J. entrou na casa onde crescera. As
tábuas do piso rangiam com a mesma preguiça dos tempos antigos. Ele caminhou
pelos cômodos como quem visita um arquivo de ruínas. No quarto onde dormira com
o irmão, encontrou lembranças como notas de um passado que não sabia mais como
acolher.
Passou a mão por objetos,
sentiu memórias quentes como fósforos. Não houve grito, não houve confronto.
Apenas um reconhecimento: havia um abismo dentro dele que não pedia espetáculo,
apenas presença. Ao sair, deixou um bilhete. Não era uma confissão, nem um
desafio. Era a assinatura costumeira, um símbolo que agora parecia menor, quase
tímido. Talvez tenha sido para lembrar que alguém fora de cena existira ali,
talvez tenha sido um pedido mudo para que o mundo continuasse a se mover.
Ninguém encontrou o bilhete por muito tempo. Ou, se encontraram, não o
entenderam.
A cidade seguiu. As ruas
continuaram a abrigar coisas que ferem e silêncios que nem sempre curam. J.
caminhou por caminhos que agora pertenciam a ele tanto quanto já haviam
pertencido aos outros. Não houve redenção dramática, nem transformação
definitiva em monstro mitológico. Houve, isso sim, uma mudança lenta: O garoto
que se curvava à dor aprendeu a andar com um peso que não era apenas seu e, em
vez de explodir, tornou-se guarda de sombras.
Se alguém hoje encontra uma
marca — uma página arrancada, um símbolo discreto num muro — pode escolher
ignorar. Ou pode, por um segundo, inclinar a cabeça e tentar ler o mapa que J.
deixou. Talvez encontre um aviso, talvez um espelho. E talvez, nesse gesto
simples, a cidade aprenda a olhar para os cantos onde os outros ficam acuados e
massacrados, talvez a cidade aprenda a reparar as fissuras antes que se tornem
abismos.
Importante:
Nota editorial
sobre direitos autorais e natureza da fanfic
Aviso
de transparência: Esta fanfic é uma obra derivada e
transformativa, criada com base na lenda digital Jeff the Killer,
amplamente difundida em fóruns e comunidades de creepypastas. O conteúdo aqui
apresentado é ficcional e não oficial, desenvolvido apenas para fins de
entretenimento e homenagem à cultura de horror da internet.
Todos os direitos sobre o
material original pertencem aos seus respectivos criadores e comunidades. Esta
publicação não reivindica propriedade intelectual sobre o personagem,
imagens ou enredos originais, e não possui fins comerciais.
A fanfic segue os princípios
de uso justo (fair use) e de criação derivada não comercial,
respeitando as normas de proteção de direitos autorais e incentivando a
produção criativa responsável.
Em resumo:
- Esta é uma interpretação pessoal e independente;
- Nenhum elemento protegido foi reproduzido sem autorização;
- O objetivo é preservar o espírito da obra original, sem violar direitos ou explorar material alheio.
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